Mundo Mulher

A crônica de Alexandru Solomon - Camafeu

A crônica de Alexandru Solomon - Camafeu

07/02/2010

Preparativos já bem adiantados. O ritmo febril traía a proximidade da data do casamento. A cerimônia civil estava marcada para a próxima sexta feira, e o casamento “militar” como o pai designava, irreveren­temente, o religioso, para o sábado.

Isso, numa quarta feira, à noite, deixava os nervos à flor da pele. Não sobrava mais tempo para corrigir qualquer erro, então não poderia ocorrer qualquer vacilo. O vestido de noiva deveria chegar no dia se­guinte. Agora, depois do jantar e bem no meio da no­vela, o noivo tinha acabado de chegar com as pas­sa­gens de avião para Salvador, onde iriam passar a lua-de-mel.

Além de ganhar o beijo da futura esposa, teve direito a uma fatia reforçada de bolo de maçã, que a própria futura sogra lhe entregou, assim que, sentado no sofá da sala, com seu notável senso de humor, perguntara se tinham algum programa para o pró­ximo sábado.

– Mamãe, assim ele vai engordar demais.

– Tem de se alimentar. Não é possível continuar pele e osso. Você já jantou? – perguntou, subitamente vitimada por um terror indescritível – aposto que não.

Impossível argumentar com a mamma. É sabido que o que diferencia a mamma de um terrorista, ape­sar de a piada ser antiga, é que é possível negociar com um terrorista. Mesmo assim, ela aceitou, com um indisfarçável ar de incredulidade, que havia jantado, sim. Ora, mas um pedaço de bolo, com certeza, ia lhe fazer bem.

Uma vez devorado o bolo, foram olhar os presentes recebidos durante o dia.

Realmente, depois da descoberta da radioatividade, a lista de presentes merece figurar entre os pontos altos do século. Talvez por terem sido quase simultâ­neos, esta não tivera o destaque daquela.

Mas quantas tragédias não evitou. Imagine receber cinco jogos de café e nenhuma cafeteira. Esse perigo já estava afastado, ao menos em parte, pois sempre há um primo distante que, sem consultar a lista, re­solve se livrar de um jogo de café recebido de algum chato que, por sua vez, ignorou-lhe a lista.

Enquanto debatiam de quem havia sido a infeliz idéia de introduzir o vaso de cristal, indigno até do lavabo do futuro casal, tocou a campainha. Três to­ques curtos seguidos de um toque cumprido.

Estava chegando a nona, matriarca do clã.

Alheia às mesuras, o seu olhar percorreu rapida­mente a sala.

– Mas que coisa! Com o concerto da Cultura, estão perdendo seu tempo com a novela. Bem, problema de vocês.

Já havia ultrapassado a barreira dos oitenta, mas mantinha um ar jovem e um jeito de andar que lhe era peculiar. Vovó Elisa caminhava diariamente no parque e ainda dava aulas de piano. O casamento com um marido autoritário cortara pela raiz uma car­reira de concertista, mas essa era uma história que ela contava sem nenhuma amargura.

Olhou para os presentes e abriu um sorriso.

– Trouxe também um presente.

Antes que começassem os “mas nem deveria ter se incomodado, sua presença já é o mais bonito pre­sente, etc, etc.”, ela cortou o coro, abriu a bolsa e reti­rou uma caixinha de veludo surrado.

– É para vocês dois.

Abriu a caixa e lá estava o camafeu que poucas ve­zes ela deixara de usar.

– Mas, vovó, hoje não se usa mais camafeu.

– Venham comigo, vou lhes contar uma pequena história, antes que pensem que fiquei caduca. Vamos para o seu quarto, acrescentou, com uma voz que não admitia réplica. Não, vocês ficam, lançou em direção aos pais. Não posso falar a sós com os noivos? Vamos para o quarto virginal.

Era difícil saber se falava sério ou não, mas...

Entraram no quarto.

– Bela bagunça. Adoro isso. Você, meu jovem, não precisa me olhar assim, não vou me desintegrar. Só não puxe a minha cadeira na hora de eu sentar. Va­mos, sentem-se também, não preparei um dis­curso, mas detesto ver gente em pé, a não ser prati­cando algum esporte. Querida, eu vi o seu susto, quando abriu a caixinha. Fique tranqüila. Primeiro, tenho um outro presente para vocês, e, depois, não queria mor­rer sem contar uma pequena história. Eu me recuso passar para uma nova dimensão sem tê-la contado. Você sabe, minha neta, e você, também, tal­vez já te­nha ouvido, que antes de ir tudo pelo ralo, meus pais tinham uma certa fortuna. Os tempos eram outros. Nada tenho contra as mudanças. Talvez a única coisa que me incomoda é o namoro um-dois-três.

Ante o ar interrogativo dos dois ela emendou.

– Sim, um quer dizer “como vai?”, dois quer dizer “muito prazer” e três, “você trouxe a camisinha?” – Todos riram. – Bem, muito tempo atrás, meus pais e eu fizemos uma viagem à Europa. De navio, claro. Paramos em Marselha, em Nápoles, depois em Atenas e voltamos. Pois bem, depois da bouillabaisse na Canebière e antes das kiftelakias em Plaka, ficamos dois dias em Nápoles. Vocês sabem que, em volta de Nápoles, prosperava e ainda claudica uma verdadeira indústria de camafeus. Tem um pouco de água para uma avó que está se desidratando? Vamos...

A sós com ele, ela sorriu. “Tirou a sorte grande, e acho que ela também”.

Tomou a água de um gole só e continuou.

– Em Nápoles, ficamos num hotel, cujo nome me foge. Como nunca mais voltei para lá, espero que, em consideração á minha idade provecta, haja da parte de vocês alguma indulgência. Asseguro-lhes que seria capaz de chegar lá de olhos fechados, apesar de só termos ficado uma noite. Eu sei que disse termos ficado dois dias, mas houve apenas um pernoite, portanto, vamos apagar esse sorriso de comiseração.

Naquela noite, havia um espetáculo de ópera, e meus pais decidiram que iríamos. Por uma razão que não sei explicar, naquela época, abominava ópera e disse que queria ficar no hotel. Meu pai nunca me disse não, exceto uma vez, quando, no hospital, já desenganado pelos médicos, perguntei se estava com medo. Se aquele foi o único não, podem deduzir que, em Nápoles, prevaleceu o meu desejo.

Eles foram e eu fiquei num salão do hotel, folhe­ando um livro. Se me perguntarem qual, lhes direi. Era Oliver Twist.

Sentada numa poltrona no elegante salão, com um lustre magnífico, olhava em torno, admirando as rou­pas das mulheres, o frufru de sedas e creio que eu também devia estar chamando a atenção. Uma mo­çoila sozinha, depois das oito da noite devia ser um sinal de depravação, sei lá.

 

 

Apareceu um pianista, que tocava maravilhosa­mente. Tocou Pour Elise, e não era para anunciar a chegada dos botijões de gás, era para Elisa, perce­bem? Tocou Chopin, tocou Schumann. Eu passei a sonhar. De repente, – visivelmente emocionada inter­rompeu-se – vocês conhecem a sensação de sentir-se observado? Olhei e vi na outra extremidade do salão um jovem e, naquele mesmo instante, o achei encan­tador. Os nossos olhares se cruzaram inúmeras vezes. Uma coisa bem careta, né, querida? Vocês tem até uma palavra melhor...

Careta ou não, assim foi. Eu não conseguia deixar de olhar na mesma direção. Começava ler e logo a seguir olhava para ele, o que, diga-se de passagem, para a época era um ato de extrema ousadia. Depois de mais algum tempo, criei coragem e fui em direção ao... pianista e perguntei se poderíamos tocar juntos. Foi um sonho.

Eu estava tocando para ele. Estava tão longe do tal “um” do namoro moderno, mas aquilo me deixou emocionada. Tocava, e claro, olhava para o príncipe encantado, que por sua vez não saiu da cadeira.

Bem, meus pais chegaram entusiasmados da Ópera, e fomos dormir. Lancei na direção dele aquilo que pensei ser o derradeiro olhar.

No dia seguinte, já no final da manhã, enquanto os carregadores colocavam as nossas malas na carrua­gem, olhávamos a Baía de Nápoles. Pouco antes de eu subir na carruagem, vi-o novamente. Ele vinha cor­rendo em nossa direção, e continuou correndo, depois de deixar algo na minha mão. Pensei que fosse des­maiar como uma heroína de vaudeville.

Bem, vocês sabem o que ele me deu.

Na caixinha havia um bilhete: Ti amo. Era assinado Giulio. Nunca mais soube dele. Nunca mais voltei a Nápoles.

Que essa lembrancinha lhes traga muita sorte. Ela sempre me acompanhou. O bilhetinho ficará para sempre com esta maluca.

Parou e emendou:

– Agora, minha neta querida, entendeu por que tanto insisti para que seu nome fosse Júlia?

 

Crônica do livro ´´Apetite Famélico``, Ed. Totalidade. Disponível na livraria Pega-sonho (Rua Martinico Prado, 372 – Higienópolis – SP – Tel.: (11) 3668-2107).| Web: http://blogdoalexandrusolomon.blog.terra.com.br

 

Mundo Mulher
Mundo Mulher
Mundo Mulher
Mundo Mulher
Fale Conosco
Crie seu mundo
twitter
Mundo Mulher
Mundo Mulher
Mundo Mulher