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O retrato - Alexandru Solomon

O retrato - Alexandru Solomon

01/03/2010

 

Naquela época ainda se falava em víspora. Duas vezes por ano, o prefeito da cidade esmerava-se na organização de tômbolas beneficentes. A gazeta local noticiava, com o devido realce, a ocorrência do evento, que, por semanas a fio, proporcionava inesgotáveis matérias jornalísticas.

Os preparativos agitavam a sociedade. Era o momento de se descobrirem as últimas novidades da alta-costura. As senhoras que não tinham a possibilidade material de brilhar em lindos vestidos parisienses infernizavam a vida das costureiras, exigindo que, a partir de fotografias de jornais, conseguissem realizar prodígios. Cuidados infinitos fizeram com que nunca houvesse dois vestidos iguais na mesma festa. Voluntárias preparavam as guloseimas a serem servidas. Uma pequena orquestra embalava os presentes ao som de lindas valsas — o samba ainda não tivera seu acesso franqueado. Toda a renda revertia em benefício da Santa Casa local.

Compreende-se a agitação que se apossava de toda essa “gente bem” quando chegava a grande noite. Caleches, tílburis e um ou outro automóvel reluzente convergiam para o salão de bailes da prefeitura. Uma enorme roda disposta verticalmente era acionada pelo prefeito. Na roda, números de um a 80 e, em frente a cada um deles uma pequena haste metálica.

O prefeito — muito raramente o juiz — fazia girar a roda. A música cessava. As pequenas hastes colidiam com um prego colocado na posição vertical. O giro logo cessava e, um número ficava alinhado com uma seta colocada no topo da armação. O possuidor daquele número ganhava a prenda previamente colocada em jogo. Uma echarpe, um bordado, ou um trabalho de crochê, doados para a nobre causa, contemplavam o duplamente felizardo. Primeiro, por ganhar a pequena inutilidade sorteada e, em segundo lugar, por ter pago, por uma causa elogiável, logo na entrada, a importância estipulada pelo senhor prefeito, para poder adquirir o número.

Apesar do esmero, a última tômbola fora um fracasso, por falta de donativos. Fora impossível chegar a oitenta. Com notável espírito de adaptação à adversidade, os organizadores tiveram uma idéia diferente. Trocaram a roda por uma urna, na qual deixaram um número de bolinhas igual à quantidade de regalos. A roda foi sumariamente aposentada e todos ficaram felizes, ou quase. Alguns sentiram a falta do ruído do giro da roda, que lembrava o som da roleta, fonte de recordações nem sempre dolorosas.

Pressentindo o advento de uma decepção maior, caso algo não fosse inovado, o prefeito fez o que dele se esperava: inovou. Nada do outro mundo. Bastou um pequeno discurso:

—Meus caros concidadãos! Assunto de orgulho para todos nós, o sucesso da tômbola semestral corre um sério risco por falta de donativos. Tenho certeza de que o que faltou desta vez foi um toque de mistério e vamos tentar introduzi-lo. Eis o que sugiro. Até hoje, todo o mundo sabia quem iria trazer o quê. Pois bem. Proponho que a prenda seja decidida com um amigo secreto. Procederemos assim: as senhoras colocarão num envelope seu nome e endereço; todos os nomes estarão neste chapéu. Os cavalheiros retirarão os envelopes, sem revelar a ninguém a identidade da correspondente. Assim, — certo, senhor bispo, nada a opor? — as damas irão oferecer as prendas aos felizardos, que se identificarão no grande dia. Melhor dizendo, na grande noite. Aumentamos o arcano em torno disso. O que acham?

O bispo fez que sim com a cabeça e foi o sinal para a aprovação geral.

O Prefeito esfregava as mãos. A idéia estava dando certo. Galante, como a função pública exige, presenciou o agradável espetáculo proporcionado pelas senhoras que, uma a uma, depositaram os envelopes no chapéu, seguido pelo não menos impressionante ato de retirada dos passaportes para o mistério. O último envelope coube ao burgomestre, como por vezes se auto-intitulava.

A música tomou conta da festa-baile, que terminou em ”horário de canto de cotovia”, noticiaria a gazeta local, por vários dias. Chegado em casa, o prefeito pode finalmente abrir seu envelope. Uma surpresa o aguardava. Não havia nome, apenas uma seqüência de três letras XYZ. Tampouco havia endereço, apenas um código de posta-restante.

Mordido nos seus brios, o alcaide decidiu pagar na mesma moeda e, na sua primeira carta, disfarçou a letra, assinou ZYX e indicou também um endereço de posta-restante.

Quis o destino que a correspondência que assim nasceu, rapidamente se desviasse do seu propósito inicial. Ao invés de discutir qual seria o donativo, as páginas vinham repletas de confissões que teriam decerto conseguido a absolvição de um padre, após as devida penitência, mas jamais poderiam ser aceitas pelos freqüentadores da tômbola sem um expressivo franzir de cenho. Já na terceira carta, a senhora misteriosa revelou estar em busca de um verdadeiro amor, coisa que o destino havia lhe negado até então. Por sua vez, o prefeito, depois de exigir e receber garantia de total sigilo — que meu santo padroeiro a castigue se comentar o que este desconhecido lhe dirá — revelou seu desencanto com a vida conjugal. Apesar de a correspondência se manter entre XYZ e ZYX, portanto entre dois desconhecidos, ou até por causa disso, já que o anonimato dá asas à audácia, aos poucos, ambos foram descobrindo afinidades. O sentimento de cumplicidade foi se apoderando deles. A letra dela parecia menos tremida, se bem que dissimulada, ao revelar seus anseios; ele, sonhador, dava livre curso aos arroubos da sua alma romântica, sem por um momento se esquecer de rebuçar sua caligrafia.

A curiosidade passou a dominá-los. A pergunta que nenhum dos dois ousava formular era: ”Afinal, com quem estou me correspondendo? Quem me proporciona tão instigante e singular prazer?” “Quem é o depositário de segredos que a ninguém me atrevi revelar?”

Ambos saboreavam esse torturador mistério, até que um dia o prefeito recolheu no Correio uma carta perfumada na qual ela sugeria: “Meu querido, já que este segredo deverá morrer conosco, e como não ouso escrever meu nome, que tal trocarmos nossas fotografias? Na próxima carta, se estiver de acordo, eu envio a minha e receberei a sua”.

Encantado, o prefeito aquiesceu de pronto. Como bom político, ocorreu-lhe que aquilo poderia ser um ardil e que, apesar de todo o afeto que transbordava das epístolas, ela poderia, movida por prudência, decidir esperar mais uma rodada para, a seguir, cumprir o trato. Assim, decidiu neutralizar essa suposta alicantina. Iria aguardar e somente enviaria seu retrato depois de ter em mãos o da misteriosa senhora.

Ao receber o retrato de sua esposa, bendisse sua prudência.

 

Crônica do livro ´O Desmonte de Vênus. (Ed. Totalidade). Disponível nas livrarias Cultura, Saraiva, Laselva e Pega-sonho (Rua Martinico Prado, 372 – Higienópolis – SP – Tel.: (11) 3668-2107).| E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

 celso fernandes - celsofernandes_colunista@hotmail.com

 

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